Edição 44
(venenos conforme necessidades)
ter um corpo não é o que se adivinha
escapa-nos tudo e os vizinhos
abrem a tarde com furadeiras
há quem insista em listas
mas basta ir ao mercado com fome
é tão humano Senhor:
alguém sugere concurso público
e jura garantias, enquanto isso
o mar recupera gota a gota
a terra que lhe pertence:
“vai, escreve
cumpre com tuas obrigações espirituais
ergue caneta como espada e luta
tu e os monges em meditação
findam no mesmo estômago:
governam sobre demônios”
não sei como atravessam
aqueles que em nada creem
ter fé não salva mas empurra
e a despeito de toda guerra
o comum é querer voltar da anestesia
Pai
grilhão não é pulseira
mostra-me que o vácuo crepita
que todo silêncio é prelúdio
e não me ofendem as vezes
em que atendo telefones para ninguém
“nada se pode
sobre o de repente de Deus”
um raio não promete nada
e entrega tudo


Sabe o que é legal? A cada poema, eu penso: esse é meu favorito dela.
Aí vem o próximo e muda tudo haha.
Adorei demais, de verdade.
ir ao mercado com fome é um dos maiores erros que o ser humano pode cometer.